BISCOITOS ORIENTAIS AVELUDADOS (ou, um passeio pelas memórias dos ancestrais)
Ser filho de uma família multirracial, com origens em
diversas etnias, é, sem sombra de dúvida, uma bênção.
Além de ter aprendido a respeitar todo mundo e conviver com
todos em paz, ter tido avós e pais que cozinhavam (e muito bem!) me ensinou a
apreciar a culinária de uma maneira especial. Com um avô sírio, uma avó filha
de libaneses, a outra filha de bascos e o outro vô filho de italianos, não tinha
como ser diferente!
Infelizmente, meus avós partiram quando eu era ainda muito
novo, uma criança. No entanto, algumas das poucas memórias que ficaram – quase todas
elas, na verdade – são de momentos na cozinha ou à mesa.
Assim, aos meus tenros quatro anos de idade, aprendi a
formar capeletti, brincando na diminuta cozinha da minha avó materna. Por
muitos anos, não imaginei que essa experiência de mexer com massa voltaria no
amor que sinto por farinha. Também me lembro das tardes em que meus pais nos
levavam (eu e meu irmão) para a casa da minha avó paterna e passávamos algumas
horas saboreando quitutes orientais.
Pouco me lembro das conversas, das situações, mas ficaram as
imagens da mesa cheia de pratos e pratinhos. Kebbe frito, temperos e
picadinhos para colocar dentro antes de cada mordida, as melhores esfihas,
abertas e fechadas, que já comi, o frango na panela em cima de um arroz com
macarrão e coisas que nunca soube, mas posso lembrar o sabor e a cor levemente
rosada da carne, o pão pita recém feito... Muita coisa!
Um capítulo ou mais merecem os doces que minha avó
preparava. Viu aqueles doces que vemos nas padarias
sírias que começaram a se espalhar nestes últimos anos, por exemplo, em São
Paulo? Sem vontade de criticar: os doces da minha avó eram mil vezes mais
saborosos. Juro! O mahmoul (pronunciado simplesmente “mamul” que ela fazia, então?
Não tenho palavras.
Já chegarei lá. Não no sabor, mas, ao menos, na elaboração.
Confiança, paciência e prática.
Voltando do trabalho passei no supermercado e fiquei
namorando temperos e águas orientais.
Namorei. Elas me namoraram. Aí tive uma
sensação, como um cheiro da memória: tinha que tentar reproduzir algo. Uns
aromas, uns sabores. E como fazê-lo de maneira a não estragar ingredientes,
gastar horas na cozinha para nada?
Fiquei pensativo. Nada de concreto...
Cheguei a casa e pus-me a ler algumas receitas orientais,
mas elas são tão vagamente orientais,
quer dizer, tão genéricas, e cada uma prometendo ser libanesa, turca, síria,
algeriana, e mais ao mesmo tempo, que quase matou o barato. Não desista,
Marcelo!
O melhor, pensei, seria inventar algo simples, feito na
minha cozinha, com minhas coisas, que trouxesse algo das minhas memórias, como
arrancando um pedacinho e trazendo ele para o presente. Acreditam que deu
certo?!
Vamos aos
ingredientes:
1/8 de colher de café (sim: uma micro pitadinha só) de
fermento para pão, dissolvido em 1 colher de sopa de água morna, meia colher de
café de açúcar e 1 colher de café de farinha. Isto é como uma versão bonsai de
uma base de massa para pão.
1 1/2 xícaras de farinha de trigo (branca, normal)
1/2 xícara de semolina
(sêmola de trigo duro moída fina – aparece em uma das fotos)
2 colheres de sopa de manteiga (não precisam sem duas montanhas, taokéi?)
1 ovo, levemente batido com um garfo numa tigelinha
1/2 xícara de açúcar
1/2 copo de leite
1 colher de chá rasa de fermento para bolo (o pó branco)
Os tomperos:
Cardamomo em pó
Noz moscada
Essência de baunilha (ou, se for podre de chique e tiver, o
conteúdo de ¼ de fava de baunilha)
Água de rosas (facultativo; eu não usei e ficou oriental do mêmo gêitu)
Como fazer:
1. Colocar manteiga e açúcar na tigela da batedeira (ou em
uma tigela e usar a batedeira manual). Bater dois minutos, acrescentar o ovo e
bater mais dois minutos.
2. Colocar o leite e a baunilha na “micro base” de fermento e
misturar bem. Acrescentar na mistura de ovo, açúcar e manteiga e bater mais um
minuto até ficar tudo bem integrado.
DICA: Se for utilizar
água de rosas, não use baunilha e coloque 1 colher de café da água.
3. Isto é importante: Colocar a farinha de trigo, 1/4 de
xícara de cada vez, para ir “misturando e vendo” como fica o ponto. O mesmo com
a semolina.
DICA: Eu fui
incorporando os quartos de xícara e testando o ponto; primeiro 4/4 da farinha,
depois 2/4 da semolina, e finalmente os outros 2/4 de xícara de farinha. O
ponto ficou macio, mais firme que para cupcakes,
porém algo mais macio que massinha de modelar.
DICA: Em algum ponto
entre os quartos das farinhas, incorporar a noz moscada (eu coloquei 1/2 colher
de café) e o cardamomo (1/2 colher de café ou, no máximo, 3/4 de colher).
4. Usando uma colher de sobremesa, ou a metade da capacidade
de uma colher de sopa, vá pegando pedacinhos da massa e colocando no fundo de
uma assadeira forrada com papel manteiga (eu usei um papel que é bem encerado e
grosso, pois o papel manteiga me odeia e eu odeio papel manteiga).
DICA: A massa vai
ficar apenas grudenta, mas não vai dar para dar forma aos biscoitos, se o ponto
estiver correto. Apenas vá pegando pedacinhos e colocando-os no papel, que eles
se viram sozinhos.
DICA: Os pedacinhos
de massa crua ficam parecendo cocada
síria pálida. É isso mesmo!
DICA: Deixe ao menos
1 centímetro entre os pedacinhos, pois eles crescem um pouco.
5. Asse em forno pré-aquecido em temperatura meia-baixa. Se
tiver seletor de temperatura, coloque em 170 graus.
DICA: Eu assei 13
minutos e ficaram dourados na base e com algumas das “pontinhas” apenas
começando a dourar. É aqui que tira do forno e deixa amornar. Tipo, sai de perto e vai preparar o café.
DICA: É muito
provável que sua cozinha se transforme em um sonho durante este processo. A
minha me fez mergulhar nas memórias dos aromas da minha avó!
6. Uma vez mornos, quase em temperatura ambiente, quebre um e veja como ficou firme sem ser
crocante no exterior e macio sem parecer bolo no interior: Este é o ponto “aveludado”;
sua boca vai sentir!
DICA: Aproveite com
uma xícara de café. Se for temperado com especiarias, muito melhor! (Pode pedir
a receita, que eu passo.) Ou com uma xícara de chá, se for chá preto temperado
com algo de laranja, ou especiarias, bem melhor.








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